"Nós, palestinianos, somos como a ave da Palestina: só a morte nos tirará dela"

"Nós, palestinianos, somos como a ave da Palestina: só a morte nos tirará dela"

São fotografias de aves que voam livres na Cisjordânia e em Gaza, tiradas por fotógrafos palestinianos apaixonados por pássaros e pela liberdade. A exposição "Aves da Palestina - a Persistência da Vida na Catástrofe" está na Mira Galerias, no Porto, até 28 de março.

Miguel Soares - Antena 1   /
Os três palestinianos têm a paixão pela vida natural, pelas aves e pela fotografia. Em Gaza, persistem na observação de aves, mesmo durante o genocídio | Fotos: Miguel Soares - Antena 1  

Mohamad Shuaibi ainda se lembra quando foi detido pelas tropas israelitas e ficou horas despido à chuva, numa ação que teve tanto de intimidante como de ameaçadora. Bashar Jarayseh ficou marcado por aquela ocasião em que aguardava passagem num posto de controlo e um soldado quase o alvejava. Sinaa Ababseh conta que num dia como outro qualquer, quando andava a fotografar uma ave jordaniana, foi intercetada pela polícia israelita e interrogada durante horas até ser libertada.

Mohamad Shuaibi

Em comum, estes três palestinianos, têm mais do que situações de segurança aflitivas, até porque casos destes fazem constantemente parte do dia a dia deste povo. Têm a paixão pela vida natural, pelas aves e pela fotografia. E foi essa paixão que os juntou no Porto para a inauguração de uma exposição de fotografia: “Aves da Palestina, a persistência da vida na catástrofe", uma mostra de dezenas de imagens feitas por seis fotógrafos. Mohamad e Bashar são da Cisjordânia, Sinaa da Galileia. Saed Shomali, outro dos autores representados, é da Cisjordânia e as irmãs gémeas Lara e Mandy Sirdah, de Gaza.

As irmãs continuam aprisionadas na própria terra. Não podem sair. Em Gaza, persistem na observação de aves, mesmo durante o genocídio. Apesar de terem sido expulsas de casa pelo exército israelita no final de 2023, continuaram a publicar fotografias.

Na Cisjordânia ocupada, Mohamad, Bashar e Saed observam e retratam aves, apesar das restrições impostas por Israel. Sinaa diz que fotografar os pássaros é uma forma de mostrar que há vida para além da morte e sublinha que os palestinianos têm vários interesses, discutem diversos assuntos. Para Muhamad Shuaibi, o objetivo das imagens é demonstrar que há "pessoas que se interessam pela vida selvagem, mesmo quando são privadas de tudo. Há vida aqui. E nós amamos a vida”, diz.

Mohamad Shuaibi é fotógrafo e documentarista de vida selvagem. Bashar Jarayseh é investigador de doutoramento no Departamento de Ornitologia do Instituto Max Planck, na Alemanha. Dedica-se a documentar e estudar a biodiversidade na Palestina. Trabalha na conservação e defesa do ambiente. 

Sinaa Ababseh fotografa a vida selvagem. Trabalha na área da educação, aconselhamento social e apoio a crianças com dificuldades de aprendizagem. Saed Shomaly trabalha, tal como Bashar, na proteção da vida selvagem e na promoção da consciência ambiental. As irmãs Sirdah dedicam-se à fotografia ambiental desde 2014. Durante mais de duas décadas, as licenciadas em Sociologia trabalharam com uma associação não governamental que dá apoio a pessoas surdas em Gaza.

Sinna Ababseh

A exposição pode ser vista nas Mira Galerias, em Campanhã, no Porto, até 28 de Março. A mostra faz parte de um programa mais vasto dedicado a Gaza e que inclui uma sessão de poesia, observação de aves, visita orientada pelos próprios fotógrafos palestinianos e um debate. Isto já depois de outras atividades sobre o Médio Oriente com angariação de fundos, performances e palestras lá terem decorrido. Esta exposição tornou-se possível graças ainda ao Coletivo pela Libertação da Palestina, à SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, à Associação Ambiental Pé Ante Pé e aos contactos da vencedora do Prémio Gazeta de jornalismo, Marta Vidal. Foi a ela que Mohamad Shuaibi falou da vontade de expor os seus trabalhos.

Apesar das dificuldades, agravadas após o 7 de Outubro, e de toda a destruição, Mohamad, Bashar e Sinaa acreditam ainda numa Palestina livre. Quando peço a Mohamad para escolher uma das suas fotos, não hesita em indicar duas: a que retrata o beija-flor-da-palestina, a “ave nacional da Palestina” e a do estorninho europeu. A primeira porque, tal como os palestinianos, é uma ave de incrível resistência física. Uma ave que constitui um símbolo de tudo o que vivem, pois reside em permanência no território, não é migratória. “Nós, palestinianos, somos como a ave da Palestina, enraizados nesta terra há milhares de anos. Só a morte nos tirará dela.", diz com firmeza inabalável Mohamad. 

A segunda foto escolhida, a do estorninho europeu, porque se trata de um pássaro que chega à Palestina a partir de países como Portugal e os palestinianos têm um provérbio que relaciona a chegada da ave com a boa fortuna. E este ano, diz, chegaram muitos, por isso acreditam que 2026 poderá ser um bom ano.

Bashar Jarayseh

Quando lhe pergunto qual a maior ambição pessoal, Mohamad diz de pronto: "tornar-me como as aves migratórias. Poder viajar sem restrições, pressões ou barreiras. Poder sair de casa para trabalhar sem ser parado em bloqueios e postos de controlo. Essa é a minha ambição e a minha esperança".
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